Havia se passado bastante tempo desde o início do trabalho no hotel. Certa noite, obrigaram-me a ficar até tarde, pois haviam hóspedes importantes por chegar, e o gerente me mandou faxinar cada um dos quartos desocupados. Nada poderia estar fora do lugar, ele disse, nem um grão de poeira deveria restar nos aposentos das tais autoridades.
Quem eram os hóspedes tão exigentes ninguém me informou, e eu também não questionei. Esse não era o tipo de gente que me interessava. Na verdade, quase nada despertava meu interesse naquela época.
Quando enfim deixei o hotel, vi um grupo de pessoas saindo da igreja ao lado. Não tinham cara de reza, mas como eu poderia ter certeza se também já não rezava? Movimentaram-se com rapidez e em poucos segundos sumiram. Perguntei-me quem eram elas, embora não tenha perdido tanto tempo buscando a resposta. Logo dormi.
Há exatos doze meses, fui à última consulta do pré-natal — a consulta decisiva, pois no dia seguinte eu completaria 41 semanas de gestação, o prazo limite que o obstetra determinou para o parto.
Ele me examinou. Tudo continuava como nas consultas anteriores: Joaquim estava encaixado, mas não dava sinais de que queria sair dali tão cedo. O médico então anunciou que eu deveria optar, naquele momento, pelo parto induzido ou pela cesariana.
Dia 8 de março, anos atrás. Às cinco horas da tarde, entre flores e bombons, mensagens rosadas e abraços, descobri que era uma mulher incompleta. Mas ninguém tinha me avisado. Aliás, durante todo o dia eu havia sido parabenizada por ser mulher. Quase nenhum homem (ou mulher) havia passado por mim sem me aconselhar a ser feliz naquele dia. E nenhum deles teve a ideia de me dizer que me faltava um pedaço, que eu era uma semimulher — metade mulher, metade algo que não sei dizer o que é. Todos me deixaram passar o dia com a impressão de pertencer completamente à categoria feminina.
Como mencionei na última carta, quando saí de casa, encontrei emprego num hotel. Você passou na frente dele muitas vezes, com certeza. Eu já havia passado também, mas nunca tinha entrado sequer até a recepção. Por isso, não poderia adivinhar que, após aquela pequena porta, escondiam-se tantos quartos, salas, saguões, varandas, banheiros e um restaurante e que tantas pessoas se hospedavam ali dia após dia.
Mesmo com toda essa extensão, o hotel tinha tão poucos
funcionários que eu me dividia para realizar o trabalho de pelo menos três
pessoas. Eu, porém, não reclamava. Era esse emprego que me mantinha. Não só
porque o salário provia os meios materiais para minha sobrevivência, mas porque
o cansaço do corpo me impedia de pensar.
This website uses cookies to improve your experience while you navigate through the website. Out of these, the cookies that are categorized as necessary are stored on your browser as they are essential for the working of basic functionalities of the website. We also use third-party cookies that help us analyze and understand how you use this website. These cookies will be stored in your browser only with your consent. You also have the option to opt-out of these cookies. But opting out of some of these cookies may affect your browsing experience.
Necessary cookies are absolutely essential for the website to function properly. This category only includes cookies that ensures basic functionalities and security features of the website. These cookies do not store any personal information.
Any cookies that may not be particularly necessary for the website to function and is used specifically to collect user personal data via analytics, ads, other embedded contents are termed as non-necessary cookies. It is mandatory to procure user consent prior to running these cookies on your website.