Como ele vai ser? O que ele vai fazer quando crescer? Às vezes eu me flagro com essas perguntas ao observar meu filho. Quando o vejo se interessar por livros, criar suas músicas, fingir que canta em inglês, dançar break no meio da sala ou se apresentar diante de um público, eu penso: vai ser artista. Quando ele se mostra entusiasmado por esportes, eu arrisco: vai ser atleta. Quando o escuto planejar as suas futuras invenções, que vão desde um robô ajudante até a fórmula da imortalidade, eu me pergunto: será que vai ser cientista?
Ele próprio já listou uma dezena de ofícios que pretende desempenhar: bombeiro, policial, cientista, músico, cozinheiro etc. Vai competir em todas as modalidades das Olimpíadas.
Se o percebo um pouco arredio, eu torço que não seja tímido como a mãe.
Quase sempre eu brigo comigo mesma. Assim como não me convém voltar ao passado, não é saudável viajar para o futuro, um futuro distante, ainda que o tempo vá se encarregar de encurtar essa distância. Não faz bem esse exercício de adivinhação.
Ser parte de um grupo é uma necessidade inata do seres humanos. Segundo artigo de Julia Estanislau (2023), publicado no Portal de Divulgação Científica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), esse sentimento tem relação com reconhecimento: uma pessoa vê-se pertencente a um grupo ou a uma comunidade quando cria um laço com os outros integrantes, sente-se acolhida e respeitada em sua individualidade.
Para Dionei Mathias (2023), no artigo Pertencimento: discussão teórica, o desejo de pertencimento se inicia na relação entre mãe e bebê, na busca do novo sujeito pela confirmação do afeto materno. Depois se reproduz, de maneiras diferentes, nas demais interações sociais que o sujeito terá ao longo de sua vida.
Já a exclusão social, que é o oposto do pertencimento, ainda conforme o autor, ocorre quando o indivíduo não atende aos requisitos determinados pelos grupos dominantes (por exemplo, os populares ou, na atualidade, os influenciadores), aqueles que conseguem concentrar a atenção e definir o que tem ou não relevância. Quem se enquadra nessas regras detém maiores chances de se sentir pertencente.
Um dia desses, ao final de nossa leitura diária, meu filho Joaquim começou a chorar. O livro escolhido naquela noite termina com a morte da avó do narrador, apresentada de maneira sutil.
Joaquim tem os quatro avós vivos e nunca perdeu uma pessoa querida. Mesmo assim, se sentiu tocado com a perda do personagem da história. Suponho que, de seu jeito, ele imaginou o quão doloroso aquele episódio foi para o personagem (tomando-o aqui como uma pessoa real) ou como ele próprio se sentiria em sua pele.
Ao entrarmos em contato com a história de outra pessoa (seja uma pessoa de verdade ou uma personagem ficcional), conhecemos uma realidade que pode nos emocionar, ainda que não tenha nada em comum com a nossa.
Por isso, defendo que as crianças conheçam diferentes histórias desde sempre, mesmo aquelas carregadas de temas difíceis.
Que impiedoso o tempo
Ele se move, sorrateiro
e eu nem percebo
Aí olho para a cara
do meu filho
e comparo com a foto
de um ano atrás
É o mesmo menino
eu posso notar
no olhar
na boca
no nariz
nos traços que ainda estão lá
Só não encontro mais
o mesmo menino
O rosto tem uma mudança
um quê de amadurecimento
o bebê se foi
o corpo estirou
ele já passa de um metro
Faço então as contas
quatro anos completos
uma copa
uma olimpíada
uma eleição
um censo
uma pandemia
uma guerra
Coube tanto em 1.461 dias
Por aqui
tantas fraldas
tantos sorrisos
tantas lágrimas
tantos porquês
tanto orgulho
tantas chinelas Havaianas
E eu fico com a pergunta:
por que a pressa, tempo?
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