
O título deste texto pode ter causado estranhamento. Foi escolhido de propósito para ressaltar um incômodo meu: a definição de livros “adequados” para bebês e crianças pequenas.
Deixo claro, para começo de conversa, que este não é um artigo de uma especialista no assunto. Trata-se da opinião de alguém que se interessa por literatura para crianças, que escreve e vem aprendendo no convívio com um pequeno ser que vai fazer dois anos em breve.
O que venho atestando em minha vivência é que o gosto pela leitura é aprendido/adquirido pelo estímulo, no contato com os livros. Eu sei, essa afirmação é clichê, porém escutá-la é diferente de experimentá-la.
Apresento e leio obras literárias para o Joaquim desde que ele era bem novinho (na verdade, cheguei a ler enquanto ainda estava na minha barriga). E sempre percebi nele entusiasmo pelos livros, pela leitura. É claro que, em certos dias, como acontece com todo mundo, ele não quer ler ou não se concentra. Mas, em geral, é um amante dos livros e convive tão naturalmente com eles, como se já se relacionassem há muito mais tempo.
Noto que não é necessário, pelo menos não no caso do Joaquim, restringir a leitura a um formato específico (não sou fã dos livros feitos para bebês) ou a livros com pouco ou nenhum texto. Há obras com grande quantidade de texto que ele ouve com atenção e, mesmo quando não leio, ele aprecia as imagens, identifica objetos, bichos e outros elementos; há ainda obras das quais até já memorizou trechos.
É impressionante! Fico babando, não posso negar, e vejo como o contato com as produções literárias tem contribuído para seu desenvolvimento, tanto em relação à aquisição da linguagem e ao reconhecimento de formas de expressão, como em relação à apreensão do mundo em geral. Além disso, ele se diverte e alimenta sua imaginação.
Falando de modo mais concreto, cito a seguir algumas das obras que têm feito parte da vida do Joaquim nessa fase (não consegui fazer uma lista menor):
- A casa, de Vinícius de Moraes e Silvana Rando (Companhia das Letrinhas, 2019);
- A visita, de Antje Damm (Claro Enigma, 2018);
- Amoras, de Emicida e Aldo Fabrini (Companhia das Letrinhas, 2018);
- Bem lá no alto, de Susanne Straber (Companhia das Letrinhas, 2016);
- Bichos de cá, de Edson Penha, Xavier Bartaburu e Tatiana Clauzet (Bamboozinho, 2019);
- Leo e a baleia, de Benji Davies (Paz e Terra, 2019);
- O mundo inteiro, de Liz Garton Scanlon e Marla Frazee (Paz e Terra, 2013);
- O tupi que você fala, de Claudio Fragata e Mauricio Negro (Globo Livros, 2018);
- Pê de pai, de Isabel Minhós Martins e Bernardo P. Carvalho (SESI-SP, 2017);
- Uma lagarta muito comilona, de Eric Carle (Callis, 2012); e
- Vovô, de John Burningham (Cosac Naify, 2012).
Outro livro que virou xodó nos últimos dias foi o As mentiras de Paulinho, de Fernanda Lopes de Almeida e Michele Iacocca (Ática, 2001). Antes de dormir, Joaquim quase sempre o pede, e nós brincamos de procurar o Paulinho em cada página (“Cadê o Paulinho?”). Ele adora! Eu também.
Como eu já disse aqui antes, a nossa experiência com os livros é pessoal (parece com a nossa relação com as pessoas) — e com os jovens leitores não é diferente. Uma obra pode agradar a uma criança e não a outra (temos livros aqui que não chamam a atenção do Joaquim). Por isso, para além da faixa etária ideal que as editoras, clubes de leitura e listas atribuem a uma produção literária, a escolha das leituras para crianças é feita na tentativa e erro. Somente quando a criança entrar em contato com o livro, ela e nós descobriremos se pode existir uma ligação ali.
Então, em vez de nos preocuparmos se uma obra é adequada ou não, se ensina isso ou aquilo, se tem muito ou pouco texto, por que não a apresentamos à criança e observamos sua reação ao objeto, à experiência que ele proporciona? O segredo é incentivar a leitura e proporcionar o contato com os livros (sonho que um dia todas as crianças brasileiras tenham essa oportunidade).
Até mais!
Quer testar a reação que os livros citados aqui podem causar nas crianças? Clique nos links a seguir:
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