Mas, para nós, que compreendemos a vida, os números não têm tanta importância! […] (p. 26)

Já escrevi no blog sobre livros e autores que valorizam a capacidade das crianças e dos jovens, com textos inteligentes e sensíveis, que divertem, emocionam e levam a refletir, a descobrir coisas novas (veja exemplos aqui e aqui). Hoje falo de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (Geração Editorial, 2015), que possui essas mesmas características, mas o destaque aqui é para o reconhecimento, pelo narrador, da forma diferenciada de pensar das crianças.
O narrador (o piloto que encontra o Pequeno Príncipe no deserto) conta que, em sua infância, mostrou um desenho de sua autoria aos adultos, na esperança de que vissem ali o que ele via. Porém os adultos não o compreenderam; enxergaram apenas um chapéu.
Meu desenho não era de um chapéu. Era de uma jiboia que havia devorado um elefante. Decidi, então, desenhar o interior da barriga da serpente para que os adultos pudessem entender melhor. Eles sempre precisam de explicações detalhadas… […] (p. 9).
Embora não cheguemos ao mundo vazios, estamos preparados para aprender. Eu noto isso com meu filho, que, com quase um ano e quatro meses, observa e reproduz nossos gestos, responde aos estímulos, atende aos nossos pedidos, brinca, dança, imita bichos e já sabe pedir as coisas de que necessita.
As crianças são livres para inventar, fazer de conta. Joaquim repete o que dizemos. Às vezes, acerta. Às vezes, passa longe. Tenho a impressão, porém, de que ele acredita que está dizendo a mesma palavra que nós (e deve estar mesmo).
O problema é que em geral nós, os adultos, vamos podando o desenvolvimento das crianças, corrigindo qualquer aspecto que consideramos errado, fazendo ir embora a criatividade em nome de seguir regras pré-estabelecidas.
O caso do desenho, citado anteriormente, ilustra esse processo: incapazes de entenderem o desenho do piloto quando criança, os adultos dizem que o menino não sabe desenhar e o fazem passar anos sem se arriscar a criar novos desenhos.
Os adultos me aconselharam a deixar de lado a mania de desenhar cobras, vistas por fora ou por dentro, e procurar estudar geografia, história, matemática e gramática. Foi assim que, aos seis anos, abandonei uma promissora carreira de pintor. […] (p. 10).
Também temos preconceitos e apego a fatos e provas, como nos lembra o narrador de O Pequeno Príncipe.
Adultos adoram números. Quando vocês contam que têm um novo amigo, eles não ligam para o que é importante. Nunca perguntam: ‘Qual o tom da voz dele?’, ‘De que ele gosta de brincar?’, ‘Ele faz coleção de borboletas?’ (p. 25).
As crianças têm outra forma de enxergar o mundo. Para nós, que já fomos podados, que só veríamos um chapéu no desenho do piloto, é difícil entender essa maneira de compreender as coisas (talvez não entendamos jamais). Mesmo assim, podemos nos esforçar para deixá-las à vontade para exercitar o pensamento, criar suas próprias explicações para os acontecimentos e se expressar, sem interferência excessiva, sem a insistência de inseri-las em padrões.
Digo isso porque fiquei me perguntando aqui: se as crianças quiserem, por exemplo, pintar o céu de amarelo, desenhar um cachorro de cinco patas, dançar fora do ritmo, contar uma história de outro jeito e inventar histórias, há algum problema nisso?
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