Foi desse modo que conheci minha mãe. Em mínimas doses, e não como qualquer criança conhece a sua. Ou, pelo menos, como eu pensava que mãe e filha deveriam se conhecer: em uma convivência diária, intensa (p. 9-10).
O trecho acima é o resumo de como Olívia, a narradora-protagonista de A conta-gotas, conhece sua mãe, que partiu quando a menina ainda era bebê, deixando-a aos cuidados do pai.
Durante sua infância e adolescência, Olívia mantém o desejo de conhecer a mãe, mas esse é assunto proibido em sua casa e na casa da avó e a menina não vê sequer uma foto da mãe.
Olívia vai então recolhendo, aqui e ali, fragmentos da imagem e do jeito de ser de sua mãe, em seu próprio reflexo no espelho, nos objetos da casa, em conversas da avó com as amigas, nas expressões do pai e até no silêncio. Vai exercitando os ouvidos e a atenção para captar qualquer referência à mãe.
Queria ver a cena congelada por uma fresta, sem jogos de adivinha com os olhos dos outros, sem ter que recorrer à ruga do pai, às conversas da avó… Desejava conhecer a voz e o rosta minha mãe. Vê-la cara a cara (p. 13).
Mas chega um momento em que essa coleção de informações soltas não é mais suficiente e, por acaso, Olívia encontra a oportunidade de conhecer mais a mãe. Isso a deixa diante do conflito entre a possibilidade de realizar seu sonho e o medo da descoberta.
Dependendo do que eu soubesse, meu mundo seria outro, minha vida poderia mudar. Isso me dava medo, um medo enorme (p. 38).
É aí que ela constata que podem existir mais de uma versão de uma mesma história e que é preciso conhecê-las todas antes de qualquer julgamento. É aí que vão aparecendo os motivos da mãe para abandoná-la aos nove meses de idade.
Essa história é um relato sensível de uma menina que vai escrevendo sua história à medida que lhe é revelada a história da mãe, de quem tanta falta sente e de quem descobre que é tão parecida. Em sua busca paciente e, ao mesmo tempo, cheia de receios, Olívia se conhece também, conhece o pai e a avó e, em paralelo, lida com as dificuldades habituais da adolescência.
A conta-gotas foi escrito por Ana Carolina Carvalho, que, com esse trabalho, venceu a décima edição do Prêmio Barco a Vapor, em 2014. Ela produziu uma obra comovente, cheia de reflexões sobre como nos constituímos a pessoa que somos e a levamos conosco pelo resto da vida — tudo isto sem lições de moral.
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