Sempre há espaço para um novo bicho-papão nos armários das mentes seduzidas pelo fascismo (p. 20).
Quem vive no Brasil de hoje (esse Brasil que começou a se desenhar em 2015 ou talvez em 2013) ou acompanha as notícias daqui já deve ter ouvido alguma teoria da conspiração sobre o formato da Terra, sobre as universidades públicas brasileiras, sobre ideologia de gênero, sobre mudanças climáticas etc. etc. etc.
Tudo bem que as teorias da conspiração não são uma invenção dos últimos anos nem exclusividade do nosso país (aliás, muitas são até importadas tardiamente de outros países). Porém ninguém poderá negar que entramos, de repente, em um mundo paralelo, onde os acontecimentos são explicados pelas mais absurdas ideias e onde se defendem visões de mundo que pareciam superadas ou impensáveis há poucos anos.
É o que nos mostra o Meteoro Brasil em Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota, cujo título satiriza um dos livros do pretenso filósofo e professor que guia as mentes e as ações de membros do alto escalão do governo brasileiro. São desse livro as afirmações que o Meteoro analisa e rebate na obra de que falo aqui.
Houve uma época em que podíamos achar que as teorias conspiratórias eram engraçadas. […] Mas, no fim das contas, as teorias conspiratórias são muito mais nocivas do que parecem, especialmente quando alimentam ódios e medos e embasam políticas públicas (p. 46).
O Meteoro Brasil é um canal no Youtube com mais de 600 mil inscritos, que discute temas como política, ciência e filosofia de um jeito simples de entender, mas — que ninguém se engane — a dupla que comanda o canal também é capaz de fazer arrepiar, de fazer chorar, de fazer pensar no mesmo assunto por dias seguidos.
Em Tudo o que você precisou desaprender para virar um idiota, o Meteoro Brasil inicialmente nos apresenta esse idiota citado no título do livro. De forma resumida, ele é um indivíduo que, diferente de seu antepassado, meteu-se a dar palpite sobre política ou até mesmo a definir os rumos dela, embora permaneça igual àquele em seu egoísmo e em sua aversão ao coletivo e não tenha necessariamente conhecimento sobre os objetos de seus comentários.
Mesmo sendo um idiota, ele foi alçado a uma posição de destaque, obtida a partir de dois processos principais: o avanço das mídias sociais e a desvalorização do conhecimento científico.
Antes da democratização da internet, o chupa-cabra e o ET de Varginha, por exemplo, foram assunto em discussões pelo Brasil. Divulgadas primeiramente pela televisão, essas histórias contaram com o boca a boca para se espalhar e ganhar ares de verdade verdadeira.
Hoje a propagação de mentiras é feita de forma rápida. Basta dar um ou dois cliques no celular para divulgar qualquer notícia com um número muito maior de pessoas do que conseguiríamos atingir com o método de décadas atrás. E cada um de nós, de qualquer espectro ideológico, está propenso tanto a acreditar em teorias conspiratórias quanto a propagá-las se não exercitar o pensamento crítico. Isso porque todos nós temos espaço para nos expressar nas redes sociais e, muitas vezes, nos portamos como se tivéssemos também o dever de emitir opiniões, como se fôssemos autoridade em qualquer assunto e como se nossas concepções fossem indispensáveis em todos os debates.
Sobre as redes sociais, o Meteoro Brasil aponta a contradição: as ferramentas feitas para aproximar as pessoas caminharam justamente na direção contrária: nos dividiram em bolhas, nas quais realimentamos nossos pontos de vista e, por vezes, crenças distantes da realidade.
Mas o Meteoro também nos traz uma esperança: talvez consigamos lidar com as redes sociais no futuro, quando essa tecnologia deixar de ser uma novidade (pois a internet e as redes sociais são algo relativamente recente) ou quando amadurecermos nossa relação com elas.
Confesso que tenho dificuldade em me envolver nas redes sociais, em participar das discussões, em acompanhar tudo o que acontece por lá. Com a enxurrada de informações (ou desinformações) a que estamos expostos, é comum nos confundirmos quanto à realidade ou, pior, repassarmos as mensagens sem questionamento sobre a veracidade do conteúdo que chega à palma das nossas mãos.
Acredito que muitas pessoas se sentem dessa mesma maneira, mas, como o Meteoro Brasil nos lembra, não faz mal reconhecer isso. Pelo contrário, é reconhecendo nossas limitações que poderemos tentar superá-las.
O caso preocupante é o daquelas pessoas que não enxergam qualquer falha em seu comportamento nas redes sociais ou em sua relação com essas ferramentas e com os outros usuários delas.
Ele [o idiota], muito possivelmente, julga não ter vulnerabilidades e despreza quem tem. O idiota moderno acha que todo mundo é doutrinado — menos ele —, e faz questão de demonstrar isso compartilhando o último meme recebido no WhatsApp (p 273).
Já a desqualificação do conhecimento científico, que é fruto de uma teoria da conspiração e, ao mesmo tempo, ajuda a sustentar outras teorias, é a base deste tempo de pós-verdade. Tudo e todos que tenham alguma ligação com aquele conhecimento (as escolas, as universidades, os professores, os cientistas, os livros, o método científico) tornaram-se vilões: eles buscam (ou são usados para) doutrinar as pessoas e dominar o mundo.
A lógica aqui é simples: invalidando a ciência e seus métodos invalida-se também qualquer tentativa dos cientistas de desmentir as teorias conspiratórias. É o que acontece, por exemplo, em relação à teoria terraplanista. Aqueles que foram levados a desconfiar da ciência dificilmente acreditarão na palavra dos cientistas a respeito desse tema e continuarão a causar risos e gerar memes relacionados à sua convicção de que a Terra é plana.
É exatamente nesse ponto (acreditar ou não) que reside o maior perigo das teorias conspiratórias. Como o Meteoro Brasil revela, essas teorias se baseiam na fé e não em evidências ou em argumentos. Por essa razão, não há como refutá-las, mas a sugestão da dupla é que tratemos o assunto com seriedade (por mais desafiadora que seja essa tarefa) ao conversar com um defensor de teorias da conspiração. Isso porque, sentindo-se motivo de gozação e havendo muitos pares para ratificar sua crença, é muito provável que ele caminhe cada vez mais em direção a essas teorias.
Entre as 24 teorias da conspiração discutidas no livro, uma me abala seriamente, talvez por meu envolvimento com a área da educação: a ideia de Paulo Freire como um doutrinador.
Como eu disse aqui uma vez, sinto como se fossem dirigidas a mim as ofensas a Paulo Freire, pois não compreendo o ódio direcionado a um homem que defendeu uma educação libertadora, uma educação com sentido na vida dos educandos. Nunca vou entender esse repúdio a Paulo Freire, muito menos a preferência geral por pessoas que desdenham de professores e estudantes, se portam de forma debochada e flertam com o autoritarismo.
Além do mais, como o Meteoro Brasil nos explica, não há maior prova contra a teoria da conspiração que desenha Paulo Freire como um doutrinador do que um de seus preceitos mais famosos: o da horizontalidade na relação entre estudantes e professores. Foi ele mesmo quem disse que ninguém educa ninguém e que os saberes dos educandos também são importantes.
Outra teoria da conspiração cruel é aquela que nega ter existido escravidão no Brasil, defendendo que os próprios negros entregaram uns aos outros aos portugueses, que sequer teriam pisado em solo africano.
O Meteoro Brasil nos mostra quais são as intenções dessa teoria: negar a dívida histórica do Brasil com o povo negro e a necessidade e a legitimidade das políticas afirmativas que tentam minimizar os efeitos da escravidão no presente.
Como não foi possível apagar o passado escravagista embranquecendo os negros, agora se tenta negar a responsabilidade por tal passado por meio da criação de mentiras (p. 232).
Aliás, o livro nos diz que as teorias da conspiração não são inocentes. Elas são criadas com algum objetivo, seja a difamação de um indivíduo ou de um grupo, a anulação de ideias ou a preparação do terreno para as mudanças desejadas pelos teóricos da conspiração.
Por tudo o que falei aqui sobre o livro, deve ter ficado claro que eu o recomendo a todo mundo. Embora o Meteoro Brasil tenha nos dado a má notícia sobre a impossibilidade de contestar as teorias da conspiração, é importante conhecer como elas surgiram e com quais finalidades. E o Meteoro nos esclarece tudo isso com desenvoltura e embasamento idênticos àqueles que demonstra em seus vídeos.
Você pode comprar o livro pelo link a seguir, mas só se você quiser, como diria o próprio Meteoro Brasil:
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